Tô nem aí pra Copa, eu tô é aqui!

O racismo não tira férias e muito menos recesso. Foi só Marcelo – jogador do Brasil – fazer gol contra , para os racistas de plantão manifestar sua raiva por conta do erro do jogador negro. E no twitter só se via “tinha que ser preto”. É só o começo.

O Desabafo Social (DS) abraçou a ideia do Imagina na Copa e irá fazer intervenções, colocando em pontos estratégicos das cidades-sedes o que está rolando pelo Brasil. Seja os gastos absurdos com a Copa, seja as meninas rifadas em Manaus.

Antes de fazer a ação de enfrentamento à exploração sexual no Farol da Barra, resolvi tirar algumas xerox dos cartazes que o DS irá colocar pelas ruas. Para meu azar, já que hoje é sexta-feira 13, antes de chegar ao Farol, a Polícia resolveu revistar minha mochila, viu os cartazes e simplesmente rasgou. A justificativa foi: Não pode divulgar nada que não tenha autorização.

Até ai menos mal. Com o slogan “Abra a felicidade”, a Coca-cola contrata jovens negros, moradores do Calabetão e Cajazeiras, para trabalhar das 6h às 20h, pagando R$ 40,00 o dia. Sem direito a café da manhã, os trabalhadores almoçam às 16h, comendo na mão porque não dão talheres e às 17h comem o lanche ( pão com mortadela, sem margarina). Não ouse sentar. Não ouse sair do lugar para comprar seu lanche. E muito menos ouse ABRIR A FELICIDADE sem pagar, mesmo se você estiver com sede ou fome.

Tô nem aí pra Copa, eu tô é aqui! E as coisas só pioram.

Seminário Mídia e Direitos Humanos

Hoje participei do Seminário Mídia e Direitos Humanos promovido pela ONG Cipó Comunicação Interativa, pelo O Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC) da Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pelo Intervozes.

O evento foi realizado no Colégio Estadual Dalva Matos,  no subúrbio de Salvador, com os alunos do ensino médio. Dando inicio as atividades, o professor Jeovandro, da Faculdade de Comunicação da UFBA, destacou a influência da mídia no cotidiano das pessoas.  “Os meios de comunicação segregam as pessoas. Como eu posso representar o outro nos meios de comunicação sem preconceito?”, disse.

A estudante Jaiana dos Santos, 15, manifestou indignação com que é transmitido nos programas policialescos. “A comunicação é um perigo para sociedade. A TV só passa coisas ruins sobre a favela, mas não é bem assim.” Paulo Vitor, do Intervozes, questionou o público. “Assistimos os programas policialescos, sensacionalistas por que queremos ou por que é o que tem?”. Logo em seguida, Paulo Vitor trouxe um exemplo de uma emissora de televisão que tinha um programa o qual violava os direitos humanos de homossexuais. Esse programa saiu do ar por 30 dias. Nesse período foram exibidos programas educativos e voltados a promoção da dignidade da pessoa humana. O resultado foi que a audiência triplicou. Isso significa que assistimos esses programas porque é o que tem.

A comunicação apesar de ser um direito, sempre foi tratada como negócio. Onde tem negócio, onde tem mercadoria há desigualdade. E por isso, os estudantes sugeriram que para exaltar a beleza e a cultura das periferias de Salvador, é necessário que os movimentos sociais e a sociedade civil unam forças para valorizar as mídias alternativas já existentes.

Loucura , loucura, loucura!

Engraçado (só que não) ver um país que alcançou sua independência em 1822 e mesmo assim não mudou nada a forma de vida de sua sociedade. E essa sociedade por volta de 1860 começou a pensar em República. Loucura né?

Ser jovem, pobre, negro e do sexo masculino é um perigo neste país, visto que possivelmente uma pessoa com essas características será alvo de uma mídia elitista e racista. Essa desigualdade entre brancos e negros no que diz respeito à distribuição da segurança, é totalmente visível pelas maiores taxas de vitimização da população negra .

É inversamente proporcional o número de adolescentes que são assassinados no Brasil, se comparado com o número de adolescentes que cometem um assassinato. Aconselho que visitem o site www.mapadaviolencia.org.br.

Vale destacar que as infrações cometidas por adolescentes estão associadas a elementos como a desigualdade social, a concentração de renda e a insuficiência de políticas sociais. E não se resolve com adoção de leis penais mais severas. É o que sempre digo: quem não foi e não é reconhecido como sujeito de direito, passa a não reconhecer o valor do outro.

Nos 54 países que reduziram a maioridade penal não se registrou redução da violência. Por que será? Porque defender a redução da maioridade penal é desculpa de quem não quer travar a luta pela plena aplicação dos direitos de crianças e adolescentes. É necessário que o Estado, a sociedade e a família somem formas para impedir que a polícia chegue antes das políticas públicas.

Desqualificar os adolescentes e jovens de hoje, principalmente aqueles que estão em luta todos os dias tentando garantir, ao menos, o direito à vida, é no mínimo uma atitude reacionária.

Justiceiros prendem adolescente negro ao poste e Rachel Sheherazade faz até campanha para adotarmos um “bandido”. O ator Vinicius Romão ficou 16 dias preso por engano. Cláudia Silva foi arrastada pelo carro da polícia , enquanto era socorrida (?). DG foi assassinado na região com UPP. Mulheres que abraçaram a campanha #EuNaoMerecoSerEstuprada foram ameaçadas. Aí vem Neymar com a campanha FDP #SomosTodosMacacos, desqualificando e querendo acabar em um só dia com lutas e estudos contra o racismo. E agora Fabiane Maria de Jesus morreu após ter sido espancada pelos justiceiros do Guarujá, sendo que havia uma SUSPEITA que ela sequestrava crianças. Suspeita errada em justiceiros do Guarujá?!

Haja estômago para aguentar uma mídia racista e elitista. Haja estômago para ver seu amigo (?) curtir a página Admiradores da Rachel Sheherazade. Haja estômago e paciência para falar pro cara que aquela piada racista não tem graça nenhuma. Haja estômago para falar para seu primo negro, que ele é negro sim, mas ele diz que não é porque Neymar falou que não era. Haja estômago e muita luta para sobreviver, resistir e ocupar espaços nessa selva de pedras. #vvar

Ventre Livre

Se a única imagem que você tem da Abolição é de uma mulher branca com um papel e uma caneta na mão, assinando a Lei Áurea… desculpe, mas você precisa estudar um pouco mais. Um pouco não, muito mais.

princesa isabel assinando a lei áurea

É engraçado ver o quanto as pessoas comemoram o dia 13 de maio e agradecem  a princesa Isabel. É até justificável, já que existe uma amnésia sociocultural e falta de conhecimento político, principalmente relacionado às questões étnicas.

Pois bem, as peças do jogo da Abolição foram lançadas suavemente para que não houvessem prejuízos aos escravistas. E os escravistas deram um xeque mate!  Entre os projetos abolicionistas está a Lei do Ventre Livre. Destaquei essa lei porque o nome é bonito. Ventre Livre. Até a terceira série do ensino médio, estudei que essa lei foi uma vitória para os abolicionistas. Até que um dia resolvi ler todos os artigos da lei.

E logo de início vejo:

Art. 1o: Os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.

Legal até. Esse artigo está claro: São livres os filhos de escravas que nascerem desde a data da lei do ventre livre!

Logo após vem o parágrafo : §1o: Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de OITO ANOS COMPLETOS. Chegando o filho da escrava a esta idade, O SENHOR DA MÃE TERÁ A OPÇÃO, OU DE RECEBER DO ESTADO A INDENIZAÇÃO DE 600$000, OU DE UTILIZAR-SE DOS SERVIÇOS DO MENOR ATÉ A IDADE DE 21 ANOS COMPLETOS. No primeiro caso o governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei. A indenização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quais se considerarão extintos no fim de trinta anos. A declaração do senhor deverá ser feita dentro de trinta dias, a contar daquele em que o menor chegar à idade de oito anos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbítrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor.

Como o escravo era propriedade, vocês acham que os escravistas iriam sair perdendo? Claro que não! A Lei do Ventre Livre fere o direito a propriedade dos escravistas, logo tinha que ter indenizações. Fora que os outros artigos tratam das punições de registro de escravos para evitar fraudes e a questão da compra de alforria.

Vale destacar que a Lei do Ventre Livre também é conhecida como Lei Rio Branco, pois foi proposta pelo visconde do Rio Branco, do partido conservador. Partido Conservador, isso mesmo.

Foi todo um preparo de terreno para que linda princesa assinasse a Lei Áurea. Hoje estamos aqui.

Antes de continuar, é melhor que vocês leiam o a fala da Princesa Isabel na fala do trono em 13 de maio de  1888:

“A extinção do elemento servil, pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades particulares, em honra do Brasil, adiantou-se pacificamente, de tal modo que é hoje aspiração aclamada por todas as classes, com admiráveis exemplos de abnegação da parte dos proprietários. QUANDO O PRÓPRIO INTERESSE PRIVADO VEM ESPONTANEAMENTE COLABORAR PARA QUE O BRASIL SE DESFAÇA DA INFELIZ HERANÇA, que as necessidades da lavoura haviam mantido, confio que não hesitareis a apagar do direito a exceção apontada’’.

Simples! A Lei Áurea “libertou” os escravos e pronto! O que os ex-escravos tinham de agora em diante?

Os ex-escravos fora deixados às margens da sociedade, se virando como podiam e tentando sobreviver. E ai vem o processo de favelização e outras questões gritantes de desigualdades que perduram até hoje. Por exemplo, quando falamos de mobilidade urbana e transporte coletivo. Quem mais sofre? Um levantamento do jornal Estado de S. Paulo mostrou que o tempo de deslocamento de casa para o trabalho é até 163% maior na periferia da capital paulista. Enquanto um morador de  um bairro nobre de São Paulo leva em média 34 minutos para ir de casa ao trabalho, o tempo mais que dobra para moradores de bairros periféricos. (1h19min), Grajaú (1h16min) ou Itaim Paulista (1h07min). Ok! Isso pode ser coisa da minha cabeça, já que as pessoas que moram nos bairros periféricos optam por morar lá visto que os preços do imóveis nas aéreas centrais das regiões metropolitanas são baratíssimos. É uma opção dessas pessoas. Mas tudo bem.

Vamos desfazer essa infeliz herança de séculos de escravidão. Estão tentando, mas não deixam. Outro ponto é: Cotas Raciais nas Universidades. Vou copiar e colar o que já escrevi várias vezes. Igualdade não é isonomia. O princípio de isonomia, em outras palavras, é “tratar os igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.” Por quê?  O artigo 5º da CF/88 trata da igualdade formal, e nem todos são iguais, seja no plano material, social, enfim..  Isso entra nas questões de políticas públicas efetivas, criação de ações afirmativas para “corrigir” legalmente esses equívocos de desigualdades e garantir a dignidade da pessoa humana através da isonomia. Ok. Próximo ponto.

“A cada três assassinatos cometidos no Brasil, dois são de jovens negros de 15 a 24 anos de idade, revela o Mapa da Violência 2013, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americano (Cebela). No total, incluindo negros e não negros, foram mais de 660 mil jovens mortos em duas décadas, um aumento de 207% no período de 1980 até 2011. O número de mortos nessa faixa etária é maior do que as vítimas de conflitos armados em outros países, como o Afeganistão, considerando apenas os dados de 2004 a 2007.”  Flaviana Serafim/CUT-SP.

Por favor, consultem o Mapa da Violência que vocês irão ter a prova e vai ver que a negra que vos fala não está inventando.

Se falo que os transportes coletivos parecem um navio negreiro, é porque parecem mesmo. A capacidade é para X pessoas, mas são “transportadas” por dia 5X, já que é mais econômico para os empresários.

Fora a empregada doméstica, que faz parte da família mas dorme no quartinho dos fundos, não pode ter direitos. Então se submete aos acordos para ter, ao menos, como garantir seu sustento.

TEM ISSO E MUITO MAIS! MAS VAMOS POR PARTES.

Se você está pensando “ela e a mania de ver racismo em tudo..” Pois bem, eu e a mania de conseguir compreender a realidade e ver que há pessoas equivocadas não veem racismo em nada, ou pior, assim como a Princesa Isabel quer que essa “infeliz herança” se desfaça da noite pro dia.