03 aprendizados sobre Produção Cultural

Nos dias 01 e 02 de novembro, o Desabafo Social e Itala Herta realizaram o Encontros & Africanidades, evento que reuniu artistas nacionais e locais para show, debates e feira empreendedora. MC Soffia, Dream Team do Passinho, Tássia Reis, Juliana Ribeiro e Mel Duarte marcaram presença.

O evento foi lindo e gostaria de compartilhar 03 grandes aprendizados da produção cultural. Nada muito técnico, apenas real. Vejam só:

  1. A imprensa não irá utilizar o release oficial do evento. Aceite isso!

Fazemos o release com tanto carinho e dedicação para não esquecermos nenhuma informação importante. Mas quando enviamos para imprensa, muita coisa é alterada, principalmente realização e parceiros. Algumas coisas podem sair de forma equivocada e outras não. Pode gerar mal estar ou não. Mas nunca sai exatamente da forma que queremos.

       2. Amig@s não querem pagar, querem cortesia!

Não importa a causa e o valor do evento. Muitos amig@s vão implorar por cortesia e se você não der, el@s não irão. Mas foi lindo ouvir da maravilhosa Sista Katia dizer que:

Lista Amiga deveria ser a lista mais cara. Vamos ver se @s amig@s fortalecem mesmo seu trampo.

 

3. As pessoas vão te ligar só na véspera do evento. E no dia do evento as ligações irão triplicar.

Sim, as pessoas não param de ligar na véspera do evento. Mesmo tendo site, outdoor, evento nas redes sociais e coisa afins, as pessoas vão querer perguntar para você o valor e o local. E se você avisa “Não posso responder, porque estou ocupada agora”, você sairá como a chata da história.

Só que isso piora no dia do evento. PIORA MESMO! 

Seu celular não vai parar de tocar e você não poderá desligar o aparelho. Afinal, você está produzindo o evento.

Todas ligações e mensagens são dúvidas que podem ser tiradas com apenas uma pesquisa rápida nas redes sociais. Não dura 1 min.

Ah, esqueci de falar que no dia posterior ao evento, as pessoas vão enviar muitas mensagens. Não, não estou falando de mensagens agradecendo ou parabenizando o evento. Mas mensagens que começam assim:

Você poderia resolver…

Você poderia me passar o número…

Você poderia..

Você poderia…

Eu preciso…

Eu preciso…

Eu preciso…

É galera, poderia colocar mais itens aqui. Mas esses três aprendizados acima merecem ser compartilhados

Como a existência de Tássia Reis, Liniker, MC Soffia e Aláfia está mudando minha vida

Um dia desses conversando com uma amiga negra e jornalista, ela disse que gostaria de fazer faculdade de Direito para ser Defensora Pública. O motivo: Vilma Reis, mulher negra, é ouvidora geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia. Isso me levou para um outro pensamento. Como é ser uma criança negra no Brasil?

Parece incompreensível que Salvador, capital mais negra do Brasil, é uma das mais segregadas. Segundo o critério de autodeclaração do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2010, Salvador possui 79,4% de negros (pretos e pardos), 18,9% de brancos, 1,34% de amarelos e 0,28% de indígenas.

A Brown University e o IBGE criaram o ranking de segregação das cidades americanas e brasileiras, a partir do índice demográfico de dissimilaridade, de 0 a 100, utilizado para comparar a presença de dois grupos (negros e brancos) distribuídos em pequenas áreas em relação à composição total da cidade. Salvador (BA) está na quinta posição do ranking de segregação das capitais brasileiras. Em primeiro lugar encontra-se Porto Alegre (RS), seguida de Vitória (ES), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG).

Tratando-se da infância e juventude, uma das coisas mais difíceis para crianças e adolescentes negros brasileiros, é construir sua identidade. Sem representatividade negra nos veículos de comunicação, nos espaços de poder e na escola, uma criança negra demora para se enxergar enquanto negra. Pior, demora a se enxergar nesses espaços.

Antes do Desabafo Social, quando tinha 14 anos, eu pensava em cantar. Isso porque ficava assistindo programas de calouros na televisão. Fiquei 2 anos fazendo violão clássico, encontrei amigxs pela vida e todo final de semana era motivo para voz e violão. Cantei algumas vezes pelo Pelourinho até surgir o Desabafo Social. Daí em diante, as demandas do Desabafo foram aumentando e o violão foi ficando de lado. Ou então, toda vez que me pediam para cantar, não conseguia de forma alguma. Não entendia o porquê de travar tanto.

Mas depois de um #NaRoda do Desabafo Social, no Capão Redondo em São Paulo, junto com Tássia Reis e Yzalú, tudo foi mudando. Elas disseram “Você precisa voltar a cantar”. Tive uma breve conversa com a Tássia e isso foi o suficiente para voltar a pegar o violão.

Me senti mais leve, mais viva, mesmo cantando e tocando sozinha no meu quarto.

No dia 24 de julho, em São Paulo, antes a banda Aláfia subir no palco, Liniker, Tássia , MC Soffia, Aláfia e eu, fizemos uma roda de celebração e de boas energias, falando da importância de nós, negros e negras, estarmos ocupando esses espaços de poder. Cada um na sua área de atuação, mas todas nós estávamos com o poder na mão: a voz que tinha sido silenciada. Foi tão forte, mas tão forte, que as lágrimas foram caindo.

Na mesma hora a conversa com Tássia veio em minha cabeça. Ver e ouvir todxs aquelxs artistas cantando “Não posso acreditar que existe um Deus que feche com a segregação“, me trouxe a pergunta: Por que eu parei de cantar, se cantando e tocando é o único momento que estou realmente em paz comigo mesmo?

A verdade é que eu nunca tinha me enxergado nesse lugar da música, da forma que me enxergo hoje quando vejo Tássia, Liniker, Aláfia, MC Soffia, Dream Team do Passinho e outrxs artistas negrxs.

Eu amo fazer o que faço com o Desabafo Social, mas estava faltando alguma coisa. Era só voltar a fazer aquilo que adoro fazer: cantar e tocar, mesmo que seja no meu quarto. Estou muito mais feliz, desde aquele dia do Capão Redondo.

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