É possível protagonismo juvenil sem reforma política?

Há quem tenha aversão com o termo protagonismo juvenil. Talvez por considerar individualista demais. Porém, a ideia proposta por Antonio Carlos Gomes da Costa, pedagogo e redator do Estatuto da Criança e do Adolescente, acerca do protagonismo, não se esgota na individualidade. A partir do momento que o jovem atua de forma ativa, colaborativa e construtiva nas decisões que irão impactar na sua vida e na sociedade, está exercendo o seu papel de protagonista.

Censurados, invisíveis e espalhados pelos quatro cantos, os protagonistas juvenis vem desenvolvendo ações de grande impacto, mostrando engajamento e compromisso naquilo que acreditam. Seja no recorte social e político, seja no recorte econômico e cultural.

Discutir sobre esse assunto sem falar em reforma política, não dá né?

Durante as manifestações de junho deste ano, o tema reforma política foi recolocado em debate nacional, fazendo com que a presidente Dilma elencasse propostas como responsabilidade fiscal e plebiscito para formação de uma constituinte sobre reforma política. Entretanto , vale destacar, que o debate e as propostas se esgotaram exclusivamente no viés eleitoral.

Quando discutimos sobre esse tema um leque de perspectivas e mudanças devem ser levados em conta. Um exemplo é a Política Militar Brasileira. É evidente que a PM age com violência. As ações truculentas têm lugar e público reservado: periferias e negros. Não foi atoa que em 2012 o Conselho de Direitos Humanos da ONU pediu que o Brasil combatesse a atividade dos “esquadrões da morte”. Assim como os casos “Amarildos”, trazem grande repercussão fazendo surgir revolucionários das redes sociais, é necessário uma enorme mobilização para que seja aprovado o projeto de lei 4471/2012. Para quem não sabe, esse PL prevê a investigação de homicídios cometidos por policiais durante o trabalho. Começar a discutir reforma política destacando esse ponto, já é um bom começo.

Já ouviu falar do Programa Estação Juventude ? Pois bem, o Programa Estação Juventude pretende ampliar o acesso de jovens de 15 a 29 anos, que vivem em áreas de maior vulnerabilidade social, às políticas, programas e ações integradas no território que assegurem seus direitos de cidadania e ampliem a sua inclusão e participação social. Um programa como esse , pode trazer grandes impactos positivos. Salvador, terceira cidade mais violenta do país segundo o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americano (Cebela) , não conseguiu a pontuação mínima necessária para ser classificada nesse programa. Sem conselho, sem secretaria e sem política de juventude fica difícil. Em contrapartida, a capital da Bahia conseguiu aprovar projetos de R$ 50 milhões para requalificar a orla da Barra. Enfim né.


Protagonismo juvenil é a participação do adolescente em atividade que extrapolam os âmbitos de seus interesses individuais e familiares e que podem ter como espaço a escola, os diversos âmbitos da vida comunitária; igrejas, clubes, associações e até mesmo a sociedade em sentido mais amplo, através de campanhas, movimentos e outras formas de mobilização que transcendem os limites de seu entorno sócio- comunitário ” (Costa, 1996:90)

Falando em transcender os limites, pensando nos lindos discursos dos parlamentares sobre a importância da participação do jovem nos espaços de poder e considerando a perpetuação do político no cargo, seria a protagonismo juvenil uma utopia? É uma questão relevante a se pensar.

Como já citei em outro texto – Reflexividade Colaborativa que está no blog do Desabafo Social – o número de adolescentes e jovens que são assassinados no Brasil, é muito maior do que o número de jovens que cometem assassinato.

Presenciamos o extermínio antecedendo o protagonismo juvenil e a polícia chegando antes das políticas públicas. Curtir apenas , já não tem efeito. Ou melhor, nunca teve. Se realmente queremos reforma política, e não apenas eleitoral, vamos levar essa discussão para o campo popular.