Racismo e discurso de ódio na Internet

Nos dias 27 a 29 de abril, aconteceu no Rio de Janeiro a conferência “Racismo e discurso de ódio na Internet: narrativas e contranarrativas. O evento foi promovido pelo Centro Berkman, da Universidade Harvard, em parceria com a Plataforma Vojo Brasil, vinculada ao Instituto Mídia Étnica. O encontro reuniu especialistas que estudam o tema no Brasil, na Colômbia e nos Estados Unidos.

De acordo com um dos organizadores do evento, foi a primeira vez que aconteceu no Brasil um evento que levantou questões relacionadas ao aumento exponencial dos casos de racismo nas plataformas digitais, apresentando exemplos positivos do uso da Internet. 

Niousha Roshani, antropóloga e consultora na área dos direitos humanos especializado em infância e juventude em regiões afetadas por conflitos e membro do Centro Berkman, trouxe alguns dados interessantes para entendermos as semelhanças existentes entre o Brasil e Colômbia. O Brasil é o país com maior população negra em termos absolutos fora do continente africano, perdendo para Nigéria. O segundo maior país é a Colômbia. São cerca de 120 milhões de negros na América Latina. 

Apesar dos Estados Unidos ter uma articulação maior da comunidade negra, os negros estadunidenses correspondem 13% da população. Esta número é igual a do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil.

Thiago Tavares, diretor da ONG SaferNet Brasil, divulgou alguns indicadores. Em 9 anos , a SaferNet Brasil recebeu e processou mais de 400 mil denúncias anônimas de racismo, envolvendo cerca de 68 mil páginas distintas (das quais 14.785 foram removidas), escritas em 7 idiomas e hospedadas em mais de 8 mil hots diferentes, em 54 países em 5 continentes.

Renato Meirelles, publicitário e diretor do Instituto Data Popular, trouxe dados sobre o desenvolvimento econômico do Brasil. Na última década, enquanto a renda familiar dos 25% mais ricos do Brasil cresceu 30%, a renda dos 25% mais pobre cresceu 81%. Das pessoas que saíram da classe D e foram para classe C , 75% são negras. Isso não significa que as coisas mudaram. O aumento do poder de consumo dos negros e a democratização da internet não acabaram com a hierarquia racial brasileira.

Na classe A, 71% da renda vem dos brancos e  29% vem dos negros, na classe D e E 72% da renda vem dos negros e 29% vem dos brancos. Isso significa que 3/4 da classe A e B é branca e 3/4 da classe D e E é negra.

Com as transformações econômicas a população negra movimentou R$ 1.573 trilhão no mercado brasileiro.  Isto é, se a população negra brasileira formasse o país, ela estaria no G20 no consumo mundial e seria o 11ª país no mundo em população. Diante disso, Meirelles destacou que o aumento do racismo e discurso de ódio na internet está relacionado com a redução da desigualdade econômica no Brasil e a democratização da internet.

“O ambiente que antes era exclusivo de uma parcela rica e branca, passa a ser ocupado por uma população negra. E isso incomoda”, diz Renato Meirelles.

Apesar das narrativas racistas e de discurso de ódio na internet, inciativas de contranarrativas foram apresentadas durante o evento.

#FicaDica

 

  1. Olabi Makerspace:  empresa social focada em estimular a aprendizagem de novas tecnologias e estimular a inovação social no país. Possui um um espaço experimentação, no qual pessoas compartilham ferramentas, máquinas e conhecimentos.
  2. Plataforma No Brasil: plataforma de pesquisa e experimentos curatoriais que conecta pessoas que estão transformando criativamente a cultura do país.
  3. Aplicativo Kilombu: o aplicativo que visa reunir anúncios de negócios e serviços de empreendedores negros.

 

Para continuar ampliando o diálogo sobre direitos na internet, acontecerá nos dias 12 e 13 de maio o simpósio Conectados al Sur, uma versão regional da rede global Digitally Connected , que aborda as oportunidades e os desafios de crianças e adolescentes no contexto digital da América Latina e Caribe. O simpósio é organizado pelo lnstituto de la Comunicación e Imagen de la Universidad de Chile, em parceria com Berkman Center for Internet & Society de la Universidad de Harvard e UNICEF.