Militância, Subjetividade e Profissionalismo

Talvez eu exclua esse texto depois que minha crise passar. Mas enquanto não passar, ficará aqui registrado.

Eu posso até ser muito nova (22 anos) para falar que cansei de um tanto de coisa. Mas cansei mesmo. Parece um peso que estou carregando, só que não quero carregar.

Um dia desses me questionei se existe a possibilidade de ser ex-militante ou ex-ativista. Porque essa era a minha vontade no momento, ou ainda é. Esse questionamento veio depois que lembrei que a escritora Neuza Santos Souza, de um dos meus livros favoritos, Tornar-se Negro, cometeu suicídio.

Depois disso, eu fechei os olhos com tanta força e pedi duas coisas: não quero adoecer e quero me permitir ser feliz.

Já fui humilhada, e quando digo humilhada, é humilhada mesmo, por eu estar onde estou hoje. Já fui colocada na parede por aceitar convites para entrevistas e eventos que sempre falaram que não tinham pessoas negras. Já fui parada na rua por alguém que disse que eu não deveria estar aqui e que envergonho o movimento. Já me xingaram por eu ser muito nova para tudo isso.

Mas como disse uma vez Maíra Azevedo…

Em nome da sororidade a gente não pode dizer muita coisa.

E eu fui forte, só que agora entendo que não preciso e nem quero ser forte o tempo todo. E não dá mais para aceitar a romantização de movimentos sociais.

Compreendo que muitas pessoas mais velhas e que realizam trabalhos e ações há muito mais tempo, não conseguiram a projeção, resultado e retorno que eu, aos 22 anos, estou conseguindo.

Mas ao mesmo tempo, eu queria não me culpar por isso. Não quero mais chegar em rodas de amigos e ter que ouvir a seguinte pergunta:

Você já se sentiu culpada por estar feliz ou conseguindo algo?

Eu não quero mais me sentir culpada e nem me desculpar por ocupar os espaços que estou ocupando hoje. Me sentir mal por isso, é a prova viva de que o racismo consegue mesmo o que quer.

Sem contar que para uma parte dos movimentos sociais, falar em dinheiro, sendo uma mulher negra,  já me coloca numa categoria de mercenária ou preta burguesa.

Se publicou na internet é público

Você é de movimento social e não pode comercializar suas coisas

O que você fala é para o movimento e todo mundo pode usar 

Não existe direitos autorais e se você fica questionando isso está alimentando o racismo

Essas falas são reais e parece que tudo que é produzido por preto é de domínio público. E a crise depois de ouvir tudo isso foi a seguinte:

Por que neguei os convites de várias lojas de Shopping que pediram permissão para vender os produtos da Kumasi e ainda receberíamos porcentagens?

Em setembro escrevi..

Como a existência de Tássia Reis, Liniker, MC Soffia e Aláfia está mudando minha vida

E percebi que desde que essas pessoas apareceram em minha vida, foi o momento que encontrei com minha subjetividade,  estou conseguindo ter um espaço para respirar e consigo estar feliz.

Depois que essas pessoas entraram em minha vida, percebi também que não sou obrigada a opinar tudo que acontece no Brasil e no mundo. Primeiro porque não sei de tudo que acontece, segundo que nem sempre domino o assunto, terceiro que as vezes estou tão machucada, tão cansada que não consigo falar nada.

Todas essas exigências e comentários tóxicos, já me fizeram pensar se eu realmente era boa no que fazia. E sim, eu sou.

Acabo de me formar no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades com ênfase em Política e Gestão da Cultura pela UFBA e irei tirar meu DRT de Jornalista.

Eu não me permito mais ficar mal ou me sentir culpada, toda vez que:

  1. Alguém citar meu nome no palco do Teatro Castro Alves e as pessoas começarem a aplaudir porque sabem que eu sou
  2. Quando meus ídolos, não deixam de ser meus ídolos e passam a ser meus amigos e as pessoas me chamam de metida só por isso
  3. Ao subir no palco e cantar com Tássia Reis
  4. Quando eu passo a frequentar outros lugares
  5. Quando faço campanhas publicitárias
  6. Quando estou na Rede Globo
  7. Quando sou parada na rua por alguém que acompanha meu trabalho
  8. Quando me chamam para prestar um serviço incrível
  9. Quando consigo fechar parcerias com grandes marcas e empresas
  10. Quando viajo para outros países
  11. etc etc etc

Eu não quero mais ficar só feliz quando vejo que alguém que indiquei para alguma coisa conseguiu realizar o trabalho, serviço ou sonho. Eu estou realizando os meus e quero estar feliz por mim também.

  • Ingrid Gonçalves

    Quando li o trecho “…eu fechei os olhos com tanta força e pedi duas coisas: não quero adoecer e quero me permitir ser feliz.” Senti no peito uma dor, pois abandonei tudo sobre movimento, leituras sobre feminismo, e dentre tantas coisas voltadas a nosso povo negro, deixei de postar minhas criticas e passei a apenas sobreviver e calada, diante de tudo. Depois de vê uma amiga negra sofrer racismo de uma outra mulher negra da qual era minha inspiração no movimento. Me vi diante do velho e do novo, escravos de um sistema sem fim, me senti tão mal que desisti ali de seguir, e comecei a me omitir, me tranquei em casa, isso vinha me consumindo e ao ler seu texto hoje. Eu só queria dizer OBRIGADA !! Por não ter apagado em tempo de que outras pessoas pudessem ler … eu sou uma delas. Gratidão. !