Descolonização do pensamento através da moda

Por Monique Evelle

Estudante: Meu TCC será relacionado com estética negra ou periferia.

Prof: Mas você sabe que não pode enxergar a moda só pra um público específico né?!

Estudante: Estamos falando de mais de 80% da população baiana negra e mais 54% do Brasil.

Prof: Mas é melhor fazer algo geral e não para negros.

Infelizmente você tem grandes chances de ouvir isso do seu professor no curso de Design de Moda. Por isso, pensando nessa perspectiva, achamos necessário falarmos sobre descolonização do pensamento através da moda.

Entre diversas perspectivas e autores que contribuem para compreensão da descolonização do pensamento, encontra-se o psiquiatra, filósofo e cientista social Frantz Fanon. Fanon é referência em estudos culturais e pós-colinais, seja nos Estados Unidos, na África ou na Europa.

Em seus escritos, Fanon critica a dimensão epistemológica do racismo, convocando os leitores, mesmo que sutilmente, para descolonizar o conhecimento. Ele possibilita enxergarmos e questionarmos o racismo epistêmico e as lutas de classes, trazendo subsídios da violência colonial na sociedade contemporânea. Em sua obra Pele Negra, Máscara Brancas (2008), o filósofo ressalta que a alienação colonial pode ser vista como ausência da capacidade de se reconhecer como um grupo social subordinado ao colonialismo. Para isso, utiliza as teorias européias da psicologia, não para aplicar em seu discurso, mas para discutir a partir do olhar da comunidade negra e exemplificar como as teorias de Freud e Lacan contribuem com a manutenção do sistema de dominação colonial.

Além de Fanon, Boaventura de Sousa Santos contribuiu significativamente para este debate. Em seu livro, a Gramática do Tempo para uma Nova Cultura Política, Santos (2006) destaca:

O que há de específico na dimensão conceptual da descoberta imperial é a ideia de inferioridade do outro que se transforma. (Santos, 2006, p.181‐182)

Essa passagem reforça a imposição cultural, fazendo lembrar do etnocídio, ou seja destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes do Ocidente.

É necessário compreendermos que toda tradição pode ser inventada. Isto é, as tradições  tal como conhecemos hoje, foram formalmente institucionalizadas através de normas e valores morais e reproduzimos em nosso imaginário social sem questioná-las. Uma frase que pode resumir a tradição como invenção é:

Sempre foi assim, não é agora que vai mudar

 

Além disso, umas das coisas que é possível que a gente ouça nos corredores do curso de Moda é:

Você não pode se inspirar na periferia, porque a periferia não é potencial consumidora

 

De acordo com a pesquisa realizada pelo Mosaic Brasil, da Serasa Experian, os jovens de periferia correspondem há 16,8% dos brasileiros (acima de 18). Elxs influcenciam a comundidade onde vivem, princiapalmente os hábitos de consumo.

Em uma matéria na Folha de S. Paulo , Juliana Azuma, superitendente de serviços de marketing da Serasa Experian afirma que

Apesar desse segmento ter uma condição financeira ainda mais limitada, são jovens que tiveram mais acesso à educação, ascenderam e foram incluídos no mercado consumidor, influenciando o dia a dia de suas comunidades na condição de formadores de opinião

 

Diante disso e das tentativas de descolonizar o pensamento, contra-narrativas através da estética e da moda foram surgindo.

Mas irei parar por aqui e fazer um convite. Se você quiser continuar essa conversa, eu, Luiz Andrade e Jamile Capistrano (designers de moda) , estaremos promovendo encontros presenciais para discutir Descolonização do Pensamento através da Moda.

Então, fiquem ligad@s para conhecer iniciativas incríveis e ampliar esse debate. Iniciaremos por Salvador (BA).

 

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REFERÊNCIAS

  • FANON, Frantz. Pele Negra. Máscaras Brancas. Rio de Janeiro: Ed. Fator, 2008
  • SANTOS, Boaventura de Sousa (2006), A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez.
  • HOBSBAWN, Eric. “Introdução: A Invenção das Tradições”. In: HOBSBAWN, E. e     RANGER, T. (org.). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.
  • Serasa Experian. Disponível em <https://marketing.serasaexperian.com.br/consumer-insights/mosaic/>. Acesso em 14 de setembro de 2016.
  • Folha de S. Paulo. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/09/1524627-jovem-da-periferia-e-consumidor-com-maior-peso-no-pais.shtml>. Acesso em 14 de setembro de 2016