Coworking: tendência ou dor de cabeça?

Para quem não conhece, coworkings são escritórios compartilhados vistos como uma revolução para pequenas empresas, profissionais freelancers e autônomos. É um ótimo espaço para quem quer ter um local para trabalhar, sem pagar muito caro por isso e ainda fazer networking.

Mas nem tudo são flores. Darei dois exemplos.

O Instituto de Mídia Étnica é uma organização da sociedade civil que está há mais de dez anos realizando projetos para assegurar o direito humano à comunicação e o uso de ferramentas tecnológicas a grupos socialmente excluídos, principalmente os afrodescendentes.

Eles têm uma casa de três andares no bairro Dois de Julho, centro de Salvador. O prédio conta com um espaço AfroHacker (que oferece atividades de robótica para crianças, jovens e adolescentes negros), um mini auditório, a redação do portal Correio Nagô e o Ujamaa, um coworking que tem como objetivo reunir empreendedores negros e de periferia.

Na língua africana Swahili a palavra Ujamaa significa “economia cooperativa”. O nome não foi escolhido ao acaso: a ideia dos fundadores é fomentar o empreendedorismo local e formar o “Vale do Dendê”, transformando a Bahia em um importante polo tecnológico.

O coworking tem wifi, local para reuniões, e descontos em cursos e seminários nas áreas de gestão e negócios. Para usar, você pode pagar mensalidades que variam de R$ 100 (40 horas por mês) a R$ 350  (plano master). Há ainda a possibilidade de alugar a sala de reunião por R$ 35 a hora pu uma estação de trabalho por R$ 25h a hora.

Em frente à casa do grande escritor Jorge Amado, no bairro do Rio Vermelho está a NOSSA: Casa Colaborativa. É muito maior que um coworking, a casa toda é colaborativa. A NOSSA oferece espaços para vivências, cursos e aulas; um coworking (R$ 80 a R$ 500), sala de reunião e pátio com cozinha compartilhada e área de convivência.

O que essas iniciativas tem em comum?  Valores acessíveis,  com boa estrutura de trabalho, mas as pessoas não frequentam.

O Ujaama Coworking foi pensando para um público específico: afroempreendedores.

  • Será que isso interfere na forma de ocupação?
  • Será que o público está sintonizado com as novas reconfigurações do trabalho e novos modelos de economia?
  • A criação do coworking antecede a formação da base da pirâmide, ou o contrário ou simultâneo?
  • Fazedores planejam o que vão fazer ou apenas fazem?
  • Se apenas fazem, por que ocupar um coworking?
  • Até que ponto um coworking é útil para esse público?

A NOSSA: Casa Colaborativa é aberta para fazedores, start-ups e afins.

  • Este público prefere coworking tradicionais e não uma casa colaborativa?
  • Preferem o que está a mais tempo no mercado do que a novidade?
  • Mas empreendedores não gostam de novidades? Não são criativos? Não é tudo colaborativo e com propósito?

Para responder essas perguntas  Camila Godinho, da NOSSA, acredita que

Existe uma diferença entre espaço compartilhado e espaço colaborativo. O que tenho visto é que é mais “fácil” usar o espaço compartilhado, aonde você paga uma taxa e não precisa se envolver. E é mais difícil viver um espaço colaborativo, pois é preciso envolvimento. Apesar de estarmos vivendo um momento de transição, em que cada vez mais colaboramos, co-criamos, atuamos em parceria, a mudança no modelo mental de posse/acesso ainda é um processo lento e o desafio é diário!

São muitas dúvidas. Mas coworking é sem dúvidas uma pequena parte da reconfiguração do trabalho na atualidade. E como todas tendências e movimentos há controvérsias. À respeito disso, há quem defenda que as novas configurações do trabalho restringem as leis trabalhistas, são incompatíveis com os empreendedores corporativos nas organizações e geram conflitos geracionais.

Fazendo uma pesquisa rápida no meu Facebook a maioria das pessoas afirmaram que utilizariam coworking para realizar trabalho diário, fazer apenas networking, participar de cursos e treinamento e fazer reuniões. Então, por que as pessoas não estão no coworking, já que os preços são acessíveis?

Em Salvador, alguns coworking fecharam e outros estão buscando formas de continuar abertos.

A dúvida é a seguinte:

  • É um problema cultural de um público específico?
  • É um problema cultural de Salvador?
  • Ou do Brasil?