¿Qué democracia para el siglo XXI?

La democracia es un espacio vivo, en constante transformación: no estamos condenados a las instituciones que heredamos sino que podemos cuestionarlas, transformarlas.

En este libro, activistas y organizaciones de toda América Latina se preguntan: ¿qué democracia queremos y podemos construir en el contexto social y tecnológico que estamos atravesando?

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Coordinadores
Matías Bianchi y Pía Mancini
Publicación gratuita, bajo licencia Creative Commons.
Licencia Creative Commons
ISBN: 978-987-45915-0-0
Realizado por
Asuntos del Sur www.asuntosdelsur.org
Democracia en Red www.democraciaenred.org
Con el apoyo de Fundación Avina y Open Society Foundation.

Las innovaciones en las tecnologías de organización y comunicación hacen necesario debatir qué prácticas sociales y políticas queremos para el siglo XXI y qué características tendrá la ciudadanía que las protagonice. No es un proceso fácil ni que pueda tomarse a la ligera. Estamos ante el surgimiento de una ciudadanía con nuevas capacidades y, como resultado, podremos discutir cómo es y cómo queremos que sea en el siglo XXI, la democracia.

Esta colección de artículos es fruto de la reflexión de hacedores, de activistas sociales de todas la región, que se animan a poner por escrito sus aprendizajes y sus inquietudes. No pretenden proveer respuestas únicas, sino presentar miradas hacia el futuro.

Sugestões de contéudos para os Workshops

Quando me apresentei no Uhull Conect um rapaz do Plugcitários perguntou como eu conseguia falar sem usar power point , prender a atenção do público, montar a apresentação na hora de acordo com o público e as falas das pessoas que me antecederam. Eu disse que converso com as pessoas da mesma forma que conversaria numa roda de amig@s. Então não tinha muito mistério. Só que antes dele, muitas pessoas me perguntaram algo assim e a resposta foi a mesma. Outra coisa que sempre me perguntam é como e quais ferramentas de comunicação e marketing digital o Desabafo utiliza. E recentemente uma galera tem me procurado para entender como funciona o financiamento coletivo. Passei uns dias dando dicas de como montar campanhas etc e tem uma galera se jogando. Como tudo isso que falei tem acontecido de forma repetida, vou juntar uma galera interessada em empreendedorismo, financiamento coletivo, comunicação e marketing digital para trocarmos figurinhas. Montarei um ciclo de workshops e quem quiser é só colar.

Serão 4 workshop. Abaixo segue sugestões de 2.

SUGESTÕES DE CONTEÚDO:

WORKSHOP I: TIRE SUA IDEIA DO PAPEL

*Serão selecionados alguns projetos para que possam ser acompanhados desde pré-campanha até o final da campanha de financiamento coletivo

MOMENTO I: Por que fazer um Crowdfunding?

1. Vantagens e Desvantagens do Crowdfunding
2. Razões pelas quais as pessoas contribuem
3. Tipos de Crowdfunding (Tudou ou nada – Flex)
MOMENTO II: Como criar e lançar sua campanha?
 
1. Escolhendo a Plataforma (como funciona e suas características)
2. Construindo a campanha
3. Mapeando a rede de potenciais apoiadores
4. Criação, produção e entrega de recompensas
5. Definição da Meta
 MOMENTO III: Como divulgar sua campanha
 
1. Planejamento de Divulgação
2. Ferramentas para aumentar a divulgação de sua campanha

WORKSHOP II: TREINAMENTO  MARKETING DIGITAL

*Esse treinamento foi realizado com as empresas juniores do Brasil. Mas podemos adaptar a realidade de coletivos e empreendedores sociais.

  1. Definição de objetivos
    1. Vendas; Autoridade;  SocialShare;
  2. Pesquisa (Entendendo qual o seu lugar na internet)
    1. Histórico e origem de acessos;
    2. Análise e diagnóstico de SEO;
    3. SocialBuzz e engajamento;
    4. Diagnóstico de Potencial de Produto;
    5. Análise de concorrência;
  3. Personificação (Entenda quem é o seu  cliente ideal)
    1. De onde vem e para onde vão;
    2. Qual o padrão de consumo;
    3. Onde ele trabalha e qual o poder de decisão;
    4. Empathy Map;
    5. Qual o nível do engajamento esperado;
    6. Jornada de compra;
  4. Planejamento
    1. Posicionamento;
    2. Fatores críticos de sucesso;
    3. Como construir o planejamento;
  5. Produção
    1. Blogs, eBooks, Whitepapers, Estudo de caso e Relatórios;
    2. Webinars;
    3. Palestras;
    4. Landing Pages;
    5. SEO e “link building”;
  6. Promoção/Propagação
    1. Surfando na mídia de massa;
    2. Links patrocinados;
    3. Facebook, Twitter, Linkedin e YouTube;
  7. Perpetuação
    1. Nutrição de leads por e-mail marketing;
    2. Automação de marketing;
  8. Precisão
    1. WebAnalytics;
    2. Métricas;

 

Curso English Power com desconto

Tentei por diversas vezes fazer curso de inglês. Perdi a conta das tentativas. A cada mudança de curso, iniciava do zero. Era uma loucura.

Ler e escrever pode até sair alguma coisa. Mas falar e ouvir já são outros quinhentos.

Há um mês conhecei a Enpower e fiz as 2 aulas grátis que eles oferecem. Agora estou fazendo aula todos os dias: Inglês direcionado, conversação diária, aula em qualquer lugar e com um preço legal.

Vantagens:

1. Material didático grátis

2. Mensalidade a partir de R$ 149,00

3. Aulas diariamente (exceto Plano Light)

4. Aula particular por R$ 7

5. Pode agendar aula até 5 minutos antes da aula  (aulas das 7h às 13h e 19h e 1h)

6. Pode cancelar ou alterar o horário da aula até 30 minutos antes da aula

7. Acessar de qualquer lugar, desde que possa usar o Skype

8. Pode escolher o professor ou a professora (são 4000 profs à disposição),

9. Você diz como quer sua aula (tema livre, seguir material didático.. sempre de acordo com seu interesse),

10. Pode trancar o curso e retornar a ele no momento em que quiser 

Planos:

R$ 149/mês com 8 aulas de 25 minutos por mês

R$ 249/mês com 1 aula de 25 minutos todos os dias

R$ 399/mês com 2 aulas de 25 minutos todos os dias

Pronto! Depois dessa empolgação toda com o curso, postei no facebook e muita gente curtiu a ideia.  Entrei em contato com a Enpower e eles responderam isso:

Oi Monique, que legal que você curtiu!
Como falei pelo telefone, pede para o pessoal interessado mandar um email para suporte@enpower.com.br com o código MON160322 para ter 10% de desconto na primeira mensalidade.

#celebrar5: Entrevista com Monique Evelle, criadora do Desabafo Social!

Feito originalmente por: Maia Vox.

Oi, tudo bem com você? Espero que sim!?

Para fechar as semanas com chave de ouro, um dos objetivos das nossas conversas nas sexta-feiras é celebrar gente que inspira e ideias que dão esperança.  Como nossa primeira convidada, vamos conhecer e celebrar a Monique Evelle, sem dúvidas uma mulher encantadora.

Fundadora do Desabafo Social, projeto social iniciado em Salvador, Bahia, que agrega protagonismo infanto-juvenil, direitos humanos e comunicação, ela que já foi eleita uma das 25 mulheres negras mais influentes na internet em 2013 pelo coletivo “Blogueiras Negras” e tem suas ideias cada vez mais reconhecidas em âmbito nacional, nos deu a honra de bater um papo para o blog.

Conhecendo o Desabafo Social.

O que começou como um trio na escola em que a Monique estudava, hoje é um projeto grande e vivo que conta com colaboradores, sobretudo jovens, de 22 estados brasileiros. O Desabafo Social promove os direitos humanos na vida de crianças, adolescentes e jovens, se utilizando para isso de oficinas, palestras e uma interação forte no mundo virtual, sempre guardando recortes sociais importantes – como de gênero e raça – nas discussões que abrem.

Entenda mais sobre o projeto no vídeo abaixo.

Conheça agora mais um pouco da Monique Evelle e de suas ideias na entrevista à seguir!

Mari Gomes (Blog MV): Desde já te agradeço por aceitar o convite. Gostaria que você se apresentasse: quem é a Monique Evelle?

Monique Evelle: Filha única, jovem como qualquer jovem e mulher negra.

Mari Gomes (Blog MV): O que te fez levar o Desabafo Social para fora da escola?

Monique Evelle: Primeiro que eu não consegui realizar nada do que eu realmente queria fazer na escola com o recorte racial. Então foi nas ruas que consegui deixar o Desabafo vivo.

A escola ainda não está preparada pra essa demanda e continua silenciando os estudantes.

Segundo que na periferia a rua é o lazer e o entretenimento. Então, me utilizei desse espaço para ficar mais próxima do pessoal e dialogar sobre direitos humanos de uma forma que eles pudessem compreender. Então, utilizava e utilizo exemplos de novelas e futebol, porque são duas coisas que a maioria assiste e que nos aproxima mais ainda.

Mari Gomes (Blog MV): O que mudou em você de lá pra cá?

Monique Evelle: A afirmação enquanto mulher e negra. Antes eu falava, mas não falava tanto como acho que deveria ter dito desde sempre. Mas tudo é uma construção. Hoje entendo a importância de ressaltar isso até para que as pessoas entendam que não vou escolher que opressão vou lutar. Se estou no debate racial, trarei a questão de gênero. Se estou no debate de gênero, trarei a questão racial e assim por diante.

Mari Gomes (Blog MV): Você esperava que fosse agregar tanta gente com suas ideias?

Monique Evelle: Nunca! Nunca mesmo. Até porque eu só tinha apoio de minha mãe e meu pai. Meus amigos e amigas mais próximos ignoravam o que eu fazia. Se não ignoravam, pelo menos não falavam que estava legal. E nas redes sociais nem as pessoas mais próximas curtiam, comentavam ou dava alguma força. Então não sabia que um dia teria tanta repercussão as coisas que faço.

Junto de colaboradores, hoje a Monique levanta dois outros projetos: a rede Social Ubuntu e a loja virtual Kumasi. Esta é um espaço virtual de aprendizagem coletiva. Aquela reúne marcas criadas por negras e negros, oferecendo apoio logístico e administrativo. 

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Foto: Instagram.com/moniqueevelle

Mari Gomes (Blog MV): Quais seus planos para o futuro?

Monique Evelle: Olha, estou muito realizada com os resultados que o Desabafo trouxe para outras pessoas e para mim também. Os projetos sendo solicitados, a rede social Ubuntu sendo procurada e pessoas sendo impactadas. Sobre planos futuros, espero que continue assim.

Mari Gomes (Blog MV): Indique, por favor, algumas das influências inspiradoras na sua vida?

Monique Evelle: Meus pais, Gabriel Leal (um dos colaboradores do Desabafo), a socióloga Vilma Reis, a filósofa Djamila Ribeiro, Paulo Rogério, cofundador do Mídia Étnica, o empreendedor Lucas Santana e George Vitor, um menino de 12 anos.

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“Sempre forte, rumo ao norte”. Trecho da canção “Campo de Batalha”, da Móveis Coloniais de Acaju, da qual a Monique participou do clipe. Foto: Instagram.com/moniqueevelle.

É com a sensação de quero mais que o post se completa. Confira nos links abaixo mais sobre a Monique, o Desabafo Social, a Ubuntu e a Kumasi.

Gostou de conhecer a Monique e suas ideias transformadoras? Quem você acha que também deveria aparecer por aqui? Deixe sua opinião nos comentários! Também não esqueça de acompanhar o blog nas redes sociais e fomentar mais ainda nossas conversas! Até mais!?

Ciberespaço, educação e a lei 10.639/03

 

Poderia começar escrevendo sobre o quão importante se tornou as novas tecnologias e o ciberespaço para mediar às relações sociais. Mas trago as expertises do geógrafo Milton Santos a respeito da globalização.

Para SANTOS (2006) a globalização possui três perspectivas: a fábula, a perversidade e a possibilidade. A globalização como fábula traz o mundo tal como nos fazem crer. Um exemplo claro disso são as novas tecnologias, ou melhor, a aldeia global como o autor denomina.

Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas.  (SANTOS, 2006, p. 9).

É importante notar a passagem do trecho que diz “ a partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar […]”. Diante desta sociedade informacional que nos faz crer que todas e todos estão conectadas (os) e interagindo no ciberespaço, esquecemos dos 42% dos brasileiros e brasileiras que não têm acesso à esta aldeia global, à internet. Este dado pode ser conferido no relatório The State of Broadband 2015 divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A globalização como perversidade está nesta desigualdade. O desemprego e o baixo salário são alguns dos fatores que afastam e impendem mais de 84 milhões dos brasileiros de estarem no ciberespaço.

Pensando na perspectiva da possibilidade e diante do que foi exposto até aqui, destacarei a tecnologia VozMob. A VozMob é uma ferramenta utilizada por imigrantes ou trabalhadores de baixa renda em Los Angeles (EUA) para criar narrativas sobre suas comunidades e realidades através de telefone móveis, desenvolvida pela IDEPSCA (Instituto de Educação Popular da Califórnia). A partir desta ideia o pesquisador Sasha Costanza –Shock do Center for Civic Media do Massachusetts Institute of Technology , criou o sistema Vojo , uma mistura de “voz” e “ojo” (olho em português).

O Vojo é desenvolvido em código aberto e permite que qualquer pessoa sem acesso à internet, mas que possua acesso a um telefone fixo ou celular simples envie suas narrativas para uma plataforma digital. O custo é de uma ligação local e cada região com cobertura Vojo tem seu próprio número fixo local.

Em 2013 Instituto Mídia Étnica, Salvador (BA), trouxe esta tecnologia para o Brasil. Neste período realizou ações na Ilha de Maré, subúrbio de Salvador  e hoje conta com apoio de outros coletivos e organizações para popularizar esta tecnologia de baixo custo e que democratiza a comunicação.

Para contemplar os 58% da população brasileira que tem acesso à internet, outras ferramentas de denúncia e aprendizagem foi criada.  O instrumento de denúncia é o Mapa Lagbaye Lyika do Iorubá “revolução geográfica”, é um projeto que tem como objetivo acumular materiais produzidos por agentes das comunidades, para que estes agentes tomem conhecimento das problemáticas sociais, sobretudo das formas de violências e genocídio do povo negro. Este Mapa serve como instrumento de reação e fortalecimento dos povos e comunidades tradicionais e de matriz africana.

No Mapa Lagbaye Lyika as pessoas podem denunciar casos de violações de direitos, localizando onde foi a violação e contactando outras pessoas, servindo como manifestações de auto cartografia. Assim, é possível garantir transparência e controle dos atos dos aparelhos do Estado, principalmente a Policia Militar.

A respeito da ferramenta de aprendizagem, podemos destacar a rede de aprendizagem colaborativa Ubuntu. Mas antes de explicar seus objetivos, acredito ser necessário contextualizar o modelo de educação tradicional e como a Ubuntu supera este modelo.

Por que somos obrigadas (os) a ir à escola desde criança?

Esta pergunta nem todas as pessoas sabem responder, até porque nem na escola iremos saber a resposta.

Em 1717 o rei Frederico Guilherme I da Prússia, também conhecido como Rei Soldado, ordenou que todas as crianças frequentassem as escolas estatais. ROTHBARD (2013) descreve o rei Frederico Guilherme I da seguinte forma:

Ele acreditava fervorosamente no despotismo patriarcal e na virtude do absolutismo monárquico. Uma de suas primeiras medidas foi aumentar o exército prussiano, fundado numa disciplina de ferro que se tornou famosa por toda Europa. Na administração civil, o rei Frederico Guilherme I forjou a máquina centralizadora do serviço público, que se tornou a famosa burocracia autocrática prussiana. No mundo comercial, o  rei impôs restrições, regulações e subsídios no comércio e negócios (ROTHBARD, 2013, p.34)

Diante disso,  nota-se que a educação obrigatória na Prússia foi uma forma encontrada pelo rei para garantir o despotismo, ascensão do Estado prussiano, levar instrução religiosa aos estudantes e impor uniformidade da língua Em 1810, já sobre o reinado de Frederico Guilherme III, foi decretado o exame estatal e certificação para as (os) educadoras (es).

Salas de aula, aulas expositivas e cansativas, intervalos curtos, sirene, fragmentação de informações através das matérias, escola como prisão. Esse modelo foi disseminado e copiado em várias partes do mundo.

No Brasil a obrigatoriedade e gratuidade da educação, podem ser vista no artigo 130 da Constituição de 1937, Estado Novo, o qual diz que “o ensino primário é obrigatório e gratuito”. Até 1971, período da Ditadura Militar, o ensino obrigatório e gratuito era educação primária, com duração de quatro anos. Após 1971 passou a ser de oito anos, dos 7 aos 14 anos.

O modelo da educação obrigatória e industrial é o que seguimos até hoje. Uma educação bancária onde as (os) educadoras (es) impõe seu conhecimento em sala de aula e as (os) estudantes recebem os conteúdos de forma passiva.

Em 2014 a Pearson, uma das maiores empresas de educação e editoria de livros do mundo, publicou o estudo The Learning Curve, com dados sobre educação e métodos de ensino no mundo inteiro. O estudo trouxe algumas habilidades necessárias para o futuro, estre elas: liderança, alfabetização digital, comunicação, inteligência emocional empreendedorismo, cidadania global, habilidade para resolução de problemas e trabalho em equipe. Será que o modelo educacional de hoje conseguirá dar conta disso?

No dia 10 dezembro de 2015 , dia Internacional dos Direitos Humanos, o coletivo Desabafo Social lançou a rede de aprendizagem colaborativa Ubuntu, uma rede social criada para conectar pessoas, ocupar e criar espaços, estabelecer uma rede de relacionamento com foco nos direitos humanos, sobretudo na participação social e política.

A rede social Ubuntu foi pensada em três pilares: desconstrução, construção e colaboração. Assim como a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, o Desabafo Social acredita que a desconstrução serve para não corrermos o perigo da história única. Para não vivermos no mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula, como diria  SANTOS (2006), precisamos construir novas narrativas, entender os contextos sem reduzir a um só olhar.

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Diante disso a Ubuntu busca ampliar as discussões sobre temas relacionados aos direitos humanos através de Espaços Colaborativos, com pessoas de diferentes lugares e experiências, permitindo que estas pessoas ocupem e/ou criem espaços, se conectem através de videochat e possam criar uma ação coletiva simultaneamente através da Wiki. Como FREIRE (1996) diz em seu livro Pedagogia da Autonomia:

Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. (FREIRE, 1996, p. 21).

Os usuários da Ubuntu conseguem despertar a curiosidade e estimular o gosto pela aprendizagem, por terem possibilidades e autonomia para isso.

Esta rede tem mais 1000 usuários, em sua maioria jovens, 95% são negras (os) e 82% mulheres. O nome Ubuntu deve ter atraído este público para a rede social, afinal, Ubuntu é uma expressão idiomática da língua Zulu que traduzida para o português significa “Eu sou porque nós somos”. Além disso, as pessoas têm conhecido a Ubuntu através de coletivos negros, feministas e de educação.

Em um mês de existência, as pessoas da rede juntaram-se e criaram conteúdos voltados para comunicação, gênero e relações raciais, que podem ser conferidos no blog do Desabafo Social. Uma de São Paulo, outro de Pernambuco, uma da Bahia, outro de Rondônia. Para as crianças está servindo como atividade extracurricular sobre história e cultura afro-brasileira.

 A escola, tal como conhecemos hoje, não coloca em prática a Lei 10.639/03. Mas quando a criança e o adolescente acessam a Ubuntu, se deparam com um mar de informações e interações sobre a história afro-brasileira, levando-as à curiosidade e ao desejo de aprender mais sobre o assunto.

Este é o caso de Fael Carvalho que passou a utilizar a rede social Ubuntu após sua mãe indicar. Hoje mãe e filho interagem na rede com outras pessoas e discutem sobre relações raciais.

Entre as principais dificuldades para a implementação da lei 10.639/03, que estabelece as diretrizes e as bases da educação nacional para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-brasileira”, estão o desconhecimentos das educadoras e educadores para abordar o tema. Isto ocorre devido à inexistência de temáticas sobre esses assuntos nos currículos dos cursos de licenciatura.

A Ubuntu permite que as (os) estudantes encontrem pessoas que possam colaborar com seus aprendizados. Ou seja, é possível encontrar educadoras (es) de matemática que, através do chat ou videochat, forneça explicações sobre determinado assunto, interligando com os dados referentes a população negra. Ou encontrar uma professora de Biologia que explique genética levando em consideração doenças que afetam principalmente as pessoas negras, a exemplo de doenças falciformes. Desta forma, esses encontros por mediação tecnológica só são possíveis porque os usuários da Ubuntu encontram na plataforma possibilidades que afloram a curiosidade e despertam naturalmente o gosto pela aprendizagem.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa as diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus, e dá outras providências. Diário Oficial da União, 12 de ago. 1971.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 1.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra 1974

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

ROTHBARD, Murray N. Educação: Livre e Obrigatória. Tradução de Filipe Rangel Celeti. São Paulo: Instituto Ludwing von Mises Brasil, 2013

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2006

Carta aberta aos amigos do meu namorado

Olá querid@s,

Esta carta é para todas as pessoas que vivenciaram ou vivenciam algo semelhante . Então vamos lá!

——————

Talvez você nem termine de ler esta carta. Talvez se ofenda ou até concorde. Talvez você nem fale mais com ele e muito menos comigo. Então adianto meus votos de boas festas e um ótimo 2016.

Eu sei o quanto é difícil aceitar que seu amigo começou namorar uma pessoa totalmente “diferente” das anteriores. É, uma pessoa que vai te questionar sempre em cada piada racista, machista, lgbtfóbica que você fizer. Uma pessoa que vai desconstruir seu discurso de “não sou racista, tenho um amigo negro”. Realmente deve ser insuportável ver a namorada de seu amigo ficar questionando seus privilégios.

Ele tinha tudo para ser um equivocado, afinal cresceu cercado de militares, amigos classe média e alta, e outras coisas mais. Só que ele resolveu entender que bandido bom não é bandido morto e que não existe racismo reverso. Ele não vai apoiar quando você falar que sofreu racismo reverso. Não adianta dizer que foi chamad@ de “branquel@”. Nem precisarei responder pra você, porque rapidamente ele vai dizer que é tudo, menos racismo.  Ah, ele também não vai te defender quando você disser que existe racismo de negros contra negros. Ele sabe que é uma estrutura social escrota que faz com que os nossos reproduzam esses discursos. Então não, não somos tod@s racistas.

Ele não teve sintomas da síndrome de Cirilo e não se encaixa no perfil de palmiteiro. Com conversas aqui e acolá, começou a entender a solidão da mulher negra e nossa sobrevivência apesar da falta de amor.  Provavelmente você irá chamá-lo de “viado” (achando que é uma ofensa. Coitad@ de você), por ele saber diferenciar femismo de feminismo, misandria de misoginia e por ai vai.

casal negro

Ele não vai te bater quando, em público, duvidar da capacidade intelectual dele. Ele vai te ignorar. Mas você é tão cara de pau, tão escrot@ que vai fingir não está sendo ignorad@ e vai implorar por atenção fazendo mais piadas racistas e eu que vou te responder. No mínimo você vai me chamar de “raivosa, louca, racista reversa” e estarei nem aí pra você.

Ele sabe que mesmo descontruindo essa lógica machista, racista e lgbtfóbica ele é homem cis, portanto privilegiado. Ele não vai receber medalha de ouro e muita menos estrelinha por apoiar nossa luta, até porque o protagonismo é nosso, mas darei um abraço nel.

Para terminar vou deixar aqui a fala da Joice Berth:

“é racista mas…é meu amigo né?!
é machista mas…já me quebrou vários galhos.
diz que tem que matar tudo que é “traveco” mas…crescemos juntos né?!
é escroto mas…se eu permito é porque me identifico e posso em algum momento agir da mesma forma. e assim caminha a humanidade…”

Se você chegou aqui, totalmente calm@, beijos querid@ <3

Como identificar a racista reversa

Por Monique Evelle

De tanto ouvir a pergunta “e quando chama o branco de branquelo, não é racismo?” e cansada de responder, resolvi destacar 5 pontos para identificar  pessoas racistas reversas, ou seja, racista contra branco (o que não existe).

Para não deixar pro final, adianto que este texto é bastante irônico.

  1. Vão querer voltar ao passado

Prepare-se! Esse é o primeiro passo pra descobrir que uma pessoa é racista reversa. Ela vai dizer que as pessoas não nascem com iguais oportunidades, que a abolição da escravatura foi um jogo político e se duvidar vão destacar alguma lei “abolicionista” Cuidado que qualquer racista reversa poderá trazer dados e provas, a exemplo da Lei do Ventre Livre:

Art. 1o: Os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.

Legal até. Esse artigo está claro: São livres os filhos de escravas que nascerem desde a data da lei do ventre livre!

Logo após vem o parágrafo :

§1o: Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de OITO ANOS COMPLETOS. Chegando o filho da escrava a esta idade, O SENHOR DA MÃE TERÁ A OPÇÃO, OU DE RECEBER DO ESTADO A INDENIZAÇÃO DE 600$000, OU DE UTILIZAR-SE DOS SERVIÇOS DO MENOR ATÉ A IDADE DE 21 ANOS COMPLETOS. No primeiro caso o governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei. A indenização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quais se considerarão extintos no fim de trinta anos. A declaração do senhor deverá ser feita dentro de trinta dias, a contar daquele em que o menor chegar à idade de oito anos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbítrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor.

 

Como o escravo era propriedade  a  Lei do Ventre Livre fere o direito a propriedade dos escravistas, logo tinha que ter indenizações. Fora que os outros artigos tratam das punições de registro de escravos para evitar fraudes e a questão da compra de alforria.

Sem contar que que poderão relembrar a a fala da Princesa Isabel na fala do trono em 13 de maio de  1888:

“A extinção do elemento servil, pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades particulares, em honra do Brasil, adiantou-se pacificamente, de tal modo que é hoje aspiração aclamada por todas as classes, com admiráveis exemplos de abnegação da parte dos proprietários. QUANDO O PRÓPRIO INTERESSE PRIVADO VEM ESPONTANEAMENTE COLABORAR PARA QUE O BRASIL SE DESFAÇA DA INFELIZ HERANÇA, que as necessidades da lavoura haviam mantido, confio que não hesitareis a apagar do direito a exceção apontada’’.

E pior, depois de relembrar a Princesa Isabel, vão te deixar no vácuo para que vocês possam interpretar e tirar suas conclusões sobre o que seria o interesse privado para desfazer a infeliz herança escravocrata. Cuidado!

  1. Vão dizer que não existe vitimismo e meritocracia

Essa parte é super perigosa. Ainda mais se você é uma pessoa privilegiada. A racista reversa vai falar que a população negra corresponde mais de 51% do Brasil, que na Bahia é cerca de 82% e as negras e os negros não ocupam nenhuma posição de poder na sociedade brasileira e que não dá para ser contra cotas por N motivos. Ou pior, vai te fazer sofrer porque te fará colocar a mão na consciência.

Vai dizer que não existe vitimismo e meritocracia porque as pessoas não nascem com oportunidades iguais para disputar igualmente espaços de poder. Vai diferencia igualdade de isonomia, alegando que o principio da isonomia é “tratar os igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.” Por quê?  O artigo 5º da CF/88 trata da igualdade formal, e nem todos são iguais, seja no plano material, social, enfim..  Isso entra nas questões de políticas públicas efetivas, criação de ações afirmativas para “corrigir” legalmente esses equívocos de desigualdades e garantir a dignidade da pessoa humana através da isonomia.

Aí é o momento que você começa a questionar e a racista reversa vai continuar falando que não existe vitimismo em um país que tem 515 anos de existência,3/4  de escravidão, 1/4 de ditadura militar, onde 77% jovens negros são assassinados por arma de fogo, onde as mulheres negras tem 2 vezes mais chances de serem assassinadas do que uma mulher branca etc.

  1. Vão falar sobre empregadas domésticas

Toda racista reversa costuma falar de relações de trabalho. Cuidado viu?! Porque se for racista reversa batizada vai citar algumas autoras ou autores. Então corre!

Você vai saber logo quando começar a dizer que o inicio do livro Onda Negra, Medo Branco: O negro na imagem das elites do século XIX, de Celia Maria Azevedo,  reflete muito bem o processo de branqueamento do Brasil pós abolição da escravatura, a impossibilidade de estabilidade de força de trabalho dos negros e negras por conta da vinda de imigrantes para exercer o trabalho livre no lugar dos ex-escravos.

Vai criticar o filme “Que horas ela volta?”, porque não houve o recorte racial e ainda vai dizer da pressão camuflada de laços afetivos entre empregadas domésticas e patrões.  Se vaciliar vai estender a conversa falando dos direitos trabalhistas dos empregados domésticos como carteira assinada, jornada de 8 horas diárias, horas extras, INSS e FGTS que não são cumpridos e que o último resquício da escravidão é a empregada doméstica.

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E para piorar a racista reversa vai problematizar da foto que Carolina Dieckmann e Regina Casé tiraram no Natal com as empregadas, quase da família.

  1. Vão te chamar de uma pessoa privilegiada

Essa é uma parte perigosa. Vão te chamar de pessoa privilegiada pelo simples fato de seu fenótipo não ser de uma pessoa negra. Só porque você não será abordada nas ruas pela polícia com frequência, não será seguida nas lojas, não estará nas estatísticas dos 77% dos jovens negros que morrem por arma de fogo e nas dos 66% das mulheres negras que morrem mais do que brancas. Só porque ninguém vai correr de você quando te ver na rua à noite, não vai te olhar com cara de suspeito,

outras coisinhas mais que você não vai entender se não for negra.

Você vai falar “Ah, mas minha bisavó era negra”. A racista reversa vai responder prontamente:

“Na hora que a bala vem não pergunta a árvore genealógica de sua família”

Ou seja, você não é alvo da polícia militar e não tem porque ficar justificando que tem alguém na sua família que é negra, se você tem fenótipo claro. Reconhecer privilégios não doi.

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E você vai dizer: “Não existe racismo reverso mesmo, só racismo (contra qualquer raça)”. Ela vai te olhar com cara de sono e só.

  1. Vão responder rapidamente

Se você perguntar “e quando chama o branco de branquelo, não é racismo?” , vai te responder: Tudo, menos racismo

Só destaquei cinco, mas a lista é imensa. Acredito que com esses destaques é possível identificar uma pessoa racista reversa.  HAHHAHA

PS: Como perceberam, este texto é PURA IRONIA. Pessoas, não existe racismo reverso. Só peguei frases que costumo ouvir toda vez que faço recorte racial. Uma dica de texto: Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios

Ubuntu e o ensino-aprendizagem

Em seu livro Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire destaca alguns pontos para compreendermos melhor o sentido do ensino- aprendizagem. “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996, p. 21).

Diante disso, a rede social Ubuntu possui espaços colaborativos e a Wiki que permitem várias pessoas colaborarem ao mesmo tempo, e cada criação é um produto coletivo. São espaços propícios para construção de conhecimento.

Um exemplo é o espaço Gênero e Diversidade. Após alguns questionamentos dos ocupantes deste espaço resolveram criar textos com muitas mãos. O primeiro foi sobre a música racista do cantor Bell Marques o segundo sobre Gênero e Raça. Textos feitos por pessoas que não se conheciam antes de acessar o Ubuntu, mas que têm afinidades e interesses no mesmo tema.

O educador Fábio Mendes, da rede pública do Distrito Federal, pediu apoio para os ocupantes da área Educação, para elaborar um projeto voltado para cidadania e direitos humanos. Logo em seguida um ocupante do Ubuntu publicou que poderia colaborar com ele e compartilhar a metodologia para os demais interessados.

Essa troca de conhecimentos e a interação entre os ocupantes do Ubuntu mostra o quanto é possível o ensino-aprendizagem através do ciberespaço, sobretudo se este espaço for livre de mecanismos privados.

Acesse: http://bit.ly/UbuntuDesabafoSocial

Festa Batekoo
Em Salvador, onde a produção cultural se destaca no nicho do Axé Music, e agora começa a aparecer jovens negros produtores culturais com suas festas fora desse nicho, percebemos três coisas: a falta de patrocínio, a negação dessas festas e muitas vezes a falta de público.
Chegou verão em Salvador e com ele todos os ensaios de axé. Todos os ensaios tem grandes patrocinadores que vão desde cervejarias até grandes veículos de comunicação. O valor do ingresso já determina o público que frequentará essas festas e garantirá a super lotação.
Com o festival Cidade das Cores, promovido por jovens empreendedores negros , isso não aconteceu. O valor do ingresso era de apenas R$ 10,00, tiveram artistas conhecidos da capital, mas pouco público.
Outra festa que vem ganhando a cidade de Salvador, é a Batekoo. Também produzida por jovens negros, sem patriocínio, esta festa tem bastante público, o que dificulta a entrada de todas e todos. A cada festa, os organizadores da Batekoo procuram locais cada vez maior para suportar tanta gente. O que é bastante difícil.
A Batekoo traz diversos ritmos musicais, sobretudo o funk. O artigo A construção do Mapa da Juventude de São Paulo, das autoras Aylene Bousquat e Amélia Cohnm baseia-se na análise dos perfis das juventudes paulista, a partir do Mapa da Juventude de São Paulo, elaborado pelo Cedec. “[…] nota-se aumento expressivo do percentual de entrevistados que se classificam como “pretos/negros” e “pardos” nas Zonas com maior exclusão (3, 4 e 5); na ZH5 – a pior posição no ranking – o conjunto de negros/pretos e pardos ultrapassa o de brancos.” (p. 7)
“No caso do funk, a preferência é menor na ZH1 (10,9%) e cresce gradativamente em direção à ZH5 (27,6%) […]” (p.10)
A preferência pelo funk cresce gradativamente em direção as zonas com maior exclusão, onde há o maior número de negros. Será que isso tem alguma relação com aquela frase “funk não é cultura” ? Pois é. Isso é um dos fatores fundamentais para negação da Batekoo em espaços culturais de “maior prestígio” na capital baiana como o Parque de Exposições, o Wet’n Wild, a Arena Fonte Nova e outros.
A Batekoo utiliza o funk como instrumento de empoderamento, o que é um grande desafio, porque há diversas interpretações. Há quem concorde ou não. Mas como diz minha amiga Djamila Ribeiro, não podemos esvaziar nossas irmãs pretas e irmãos pretos de história.
A produção cultural em Salvador é cruel. E as nossas e nossos companheiros de luta reproduzem essa lógica perversa, deslegitimizando o trabalho das pretas e dos pretos.
Aos poucos iremos entender que o Brasil tem 515 de existência, 3/4 de escravidão, 1/4 de ditadura, que a abolição da escravatura foi um jogo político e que se não dão espaço para realizarmos nossos eventos culturais, a gente toma!
Não se discute gênero sem falar de raça

Por Monique Evelle e Alexandra Oju Oyin

Mais de 80 mil tweets sobre o #PrimeiroAssedio, diversas denúncias do #Meuamigosecreto. Essas são apenas duas das dezenas hastags que dominaram as mídias sociais em 2015. Pode parecer besteira, dirão que é moda, tentarão desqualificar nossa luta, mas de acordo com dados divulgados em novembro, pela Central de Atendimento à Mulher, o número de denúncias de violência contra mulher no disque-denúncia aumentou 40%.

Isso significa o que quanto são necessárias mobilizações nas redes sociais. São mulheres manifestando suas insatisfações diante da sociedade patriarcal e encontrando apoio em outras companheiras. Mas não podemos esquecer do lugares onde as hastags não chegam.

A ONG ÉNois Inteligência Jovem em parceria com Instituto Vladimir Herzog e o Instituto Patrícia Galvão, realizou uma pesquisa com 2.285 mulheres entre 14 e 24 anos, com renda familiar de até R$ 6 mil, moradoras de 370 cidades brasileiras. A pesquisa revela que 94% delas já foram assediadas verbalmente e, 77%, sexualmente.

pesquisa

Mesmo com todos estes dados, sem contar os que já foram registrados após o período de pesquisa, notamos a falta de seriedade por parte da mídia de massa para com os fatos. Qual o motivo de não abordar tamanha realidade que afeta significantemente as mulheres, sobretudo negras, com o mesmo afinco e foco dirigidos ao carnaval, as campanhas políticas, a publicidade , ao campeonato de futebol ou, até mesmo, ao lançamento da novela das 9 ( nove)?

Se por um lado existem movimentos lutando pelo direito básico da cidadã, neste caso, o das mulheres em situação de risco, de outro lado temos dogmas, preconceitos, estereótipos, tabus, cultura destrutiva e todo um mecanismo social que vem na contramão dessa luta.

Sabemos o quanto é importante destacar e ampliar nossas lutas, colocando nossas pautas nos grandes veículos de comunicação. Em novembro deste ano a Revista Época, da editora Globo, trouxe como matéria de capa o Feminismo. Ontem, 15/12, o Profissão Repórter, da Rede Globo, também abordou este tema. Mas não foi sobre feminismo negro, ok? Entretanto, a mesma emissora que se propõe a debater gênero, é a mesma que estigmatiza a mulher negra em seus comerciais, novelas e programas de entretenimento. É mesma que trás em suas séries, a exemplo de Sexo e as Negas, a narrativa e a direção de uma homem branco que não entende, desvaloriza e não sente na pele a luta cotidiana das mulheres negras. Mas ele insiste em falar por nós.

São 515 de Brasil, destes 3/4 foram de escravidão, 1/4 de ditadura militar e em 2015 temos o Congresso mais conservador pós-ditadura. 340 é o número de veículos da Rede Globo de Televisão e de suas afiliadas. Sem contar dos veículos controlados por políticos, em sua maioria do DEM, PMDB e PSDB. 340 é o número de veículos da Rede Globo de Televisão e de suas afiliadas. Sem contar dos veículos controlados por políticos, em sua maioria do DEM, PMDB e PSDB.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, divulgada pelo IBGE em 2013, mais de 103,5 milhões do Brasil são mulheres, o equivalente a 51,4% da população. Sendo a maioria mulheres negras e pardas. A taxa de mulheres negras vítimas de homicídios no país é mais que o dobro da de mulheres brancas. Para cada 100 mil habitantes, o número é de 7,2 e 3,2 respectivamente. São essas mulheres que sofrem da mesma forma quando veem seus filhos nas estatísticas (77% dos jovens negros são assassinados por arma de fogo no Brasil). São essas mulheres que sofrem com a falta de amor. São essas mulheres que não terão hastag, a não ser que seja famosa, porque aí irão personificar o racismo.

Diante disso, nós mulheres negras, lutamos cotidianamente não só pelo direito à vida, mas pelo poder de fala, pela possibilidade de se tornar visível numa sociedade machista, racista e misógina, controlada pelos oligopólio das comunicações que ceifam nossas falas ou falam por nós.

Não daremos um passo à trás. Nos tornaremos a mídia que queremos ver e não discutiremos gênero sem falar da questão racial.